terça-feira, 23 de outubro de 2007



Saí do transe percebendo a voz alterada do taxista. Estava há cerca de quarenta minutos enjaulado em um carro, a poucos - longos - metros da Saturnino de Brito / Lagoa, preparando-me para mais um dia ensolarado no trabalho. Lembrava-me então da revista que lia algumas horas antes na sala de espera do dentista e desejava-a, insanamente, especialmente a página que tratava do namoro do Governador Neves com a Miss Terceiro Mundo.


Do lado de fora, o de sempre: carros, crianças jogando bola, a lixeira laranja toda pixada, prédios legais, carros e um vira-latinha tentando arrumar alguma coisa pra comer na lata de lixo toda pixada.


O taxista: Sacanagem com o cachorro... (T) Devia ter feito isso com a mulher dele.
Eu olhando a pixação: Pois é, né?


O taxista: É isso aí... Hoje em dia tudo é arte. Matar cachorro agora é arte.


Eu: (T)




Aí me dei conta... Era o cachorro da exposição.


"Guilhermo Habacuc Vargas" - eu viria a procurar mais tarde no google - "maldito", "filho da puta", "assassino de cães", foram os resultados.


Nada antes. Nada depois. Possivelmente um artista de uma "obra" só, como tantos, ou alguma vítima do google que nunca coloca como primeira opção o que existe de mais relevante sobre o objeto da pesquisa.


Eis o depoimento do "googado":


"O que me importa é a hiprocrisia das pessoas. Um animal assim vira o centro das atenções quando está em um local onde se quer ver arte, mas ninguém ligaria se ele estivesse passando fome nas ruas."


Desliguei o computador. Hora do almoço. Pedi um filet à Oswaldo Aranha.

Lembrei da Miss, do Neves, da lixeira pixada:

Achei sinceramente, que Habacuc de Arão tinha alguma razão... Se fosse na rua, ninguém lhe daria atenção.

Arte visceral e comprometida.

Na sequência do depoimento na página "googada", a revelação do porquê , da inspiração do costa-riquenho:

Ele queria homenagear Natividad Canda, (pensei: seu cãozinho de estimação - morto na Costa Rica por falta de nutrientes) um nicaraguense morto por cães rotweiller.

Eu: (T) - Filho da puta!

Mais triste que equivocar-se é não fazer idéia de como fundamentar o equívoco. Triste fim de um artista, não?

Finalizando o Oswaldo Aranha, pensei que eu de fato não dou a mínima pra quem está morrendo de fome na rua. Ou pelo menos, esses cachorros, mendingos, moleques - pixações em nossa grande lata de lixo laranja - não me fazem escrever pedindo pra que as pessoas se comovam.

Bem, eu espero não ser preciso que outro arteiro amarre uma criança de 7 anos em uma exposição com um filet à Oswaldo Aranha fora de seu alcance, para que eu me memobilize a escrever essas palavrinhas... O pior é que, nesta situação hipotética, a pobre criança faminta seria sufocada até a morte pelo tédio antes mesmo da barriga roncar, tamanha pós-modernidade a qual ela teria sido submetida.

Enquanto isso em Brasília, dentro de uma dessas obras de Niemeyer, o prato está cheio de ração.

Salvem os cães, por favor.

domingo, 21 de outubro de 2007

Sem Gelo...




Tome de um gole só e tente compreender a obra de arte do próximo post: